Estive reflexivo sobre o por quê vou a eventos de tecnologia até achar uma resposta melhor, apoiada em dados reais de networking e algumas lacunas que assumo.

Faz uns meses estive refletindo sobre essa pergunta: por que eu vou a eventos de tecnologia? Não é retórica. É a pergunta que faço toda vez que acordo num sábado de manhã e penso se vale mesmo a pena sair de casa pra ir a um evento, se algo tem mudado em minha carreira.
A resposta que eu tinha era vaga. “Porque é bom pra carreira”, “porque todo mundo fala que é importante”. Mas nenhuma dessas respostas resiste a uma segunda pergunta: importante por quê, exatamente?
Sendo assim, meu caro dev, fui atrás de uma resposta melhor. Após algumas pesquisas, reflexões sobre o processo de conhecimento e conversas com IA, acabei esbarrando numa ferramenta que psicólogos organizacionais usam desde os anos 1950 pra mapear o que sabemos sobre nós mesmos e o que só os outros enxergam: a Janela de Johari. Não é relacionada com tecnologia, mas resolvi fazer algumas analogias e virou a lente que uso desde então pra entender o que um evento pode (e não pode) me dar. Neste texto eu conto o que descobri, com os dados que consegui checar de verdade e os que não passaram no teste.
O problema: ir a eventos “porque sim” não é estratégia
Fui a eventos sem saber muito bem por quê. Palestra atrás de palestra, voltava pra casa cansado e, na segunda seguinte, não conseguia apontar o que aquilo tinha mudado no meu trabalho.
Não era o evento. Era eu ir sem saber o que estava procurando. Sem um objetivo, é fácil confundir “estar presente” com “estar aprendendo alguma coisa”, e foi tentando resolver essa confusão que topei com um modelo de autoconhecimento interpessoal que virou minha régua desde então.
De onde vem essa história de “aberto, oculto, cego e desconhecido”
Em 1955, os psicólogos Joseph Luft e Harrington Ingham apresentaram, num workshop de dinâmica de grupo em Los Angeles (o Western Training Laboratory in Group Development), um modelo gráfico pra mapear autoconhecimento e comunicação interpessoal. O nome “Johari” é a fusão dos primeiros nomes dos dois autores, Joseph e Harrington.
O documento original de 1955, publicado nos anais daquele workshop, não está disponível de forma acessível hoje. Várias fontes acadêmicas citam o mesmo registro bibliográfico, mas nenhuma linka o texto em si. O que encontrei de mais acessível em português foi um artigo de 2022 que aplica o mesmo modelo ao desenvolvimento de competências socioemocionais. Fica registrada essa lacuna de pesquisa.
O modelo divide autoconhecimento em quatro quadrantes, cruzando dois eixos: o que é conhecido por mim e o que é conhecido pelos outros.
- Aberto (Arena): o que eu sei sobre mim e os outros também sabem.
- Cego (Blind Spot): o que os outros sabem sobre mim, mas eu não enxergo.
- Oculto (Façade): o que eu sei sobre mim, mas não compartilho com os outros.
- Desconhecido (Unknown): o que nem eu nem os outros sabemos ainda.
Diferente da confusão comum que existe em torno de outros modelos parecidos (categorização de conhecimento sobre um assunto, não sobre uma pessoa), a Janela de Johari nasceu especificamente pra pensar comunicação entre pessoas. E é exatamente por isso que ela encaixa tão bem em evento de tecnologia: um evento é, antes de qualquer palestra, uma máquina de trocar informação entre pessoas.
Primeiras tentativas: o que eu fazia de errado
Antes de organizar o raciocínio dessa forma, eu cometia alguns erros clássicos, que pesquisando depois descobri que não são só meus.
O primeiro é ir ao evento sem nenhum “oculto” que eu quisesse revelar. Sem uma pergunta específica guardada (que tecnologia essa empresa usa pra resolver X, como esse time lida com Y), o evento vira consumo passivo de palestra, sem conversão em decisão ou conexão nenhuma.
O segundo é tratar networking como coleta de cartões ou conexões no LinkedIn, quanto mais melhor. Isso ignora completamente a força da conexão que você está criando, e voltarei nesse ponto mais adiante porque tem dado bom sobre isso.
O terceiro, que talvez seja o mais pessoal pra mim: forçar small talk espontâneo em corredor de evento como única forma de fazer contato, quando pessoas mais introspectivas (eu incluído) podem construir a mesma rede de forma assíncrona, depois do evento, sem o desconforto da conversa ao vivo forçada.
Como os quatro quadrantes se aplicam a eventos de tecnologia
Aqui está o “aha” que mudou como eu penso sobre isso. Cada tipo de interação num evento de tecnologia move informação entre um quadrante diferente da janela, e reconhecer isso muda completamente como eu escolho pra qual evento ir e o que eu espero tirar dele.

Aberto: reforçar algo que você já sabe e que os outros também sabem, ver como outras pessoas aplicam na prática o que você só leu em documentação. Não é o motivo mais forte pra ir a um evento, mas valida ou ajusta o que você já pensa que sabe, e cria o terreno comum que puxa conversa.
Oculto: você carrega uma dúvida específica, mas não a verbalizou até então. É a categoria mais produtiva pra quem tem um objetivo claro: “não sei como esse time resolve escalabilidade” e vai perguntar exatamente isso, movendo essa informação do quadrante oculto pro aberto.
Cego: alguém enxerga, na sua fala ou no seu jeito de resolver um problema, algo que você mesmo não percebia. É o quadrante mais desconfortável e, na minha experiência, o que mais justifica ir presencialmente: ninguém aponta seu próprio ponto cego sozinho na frente do computador.
Desconhecido: um insight que emerge só na troca, que nem você nem a outra pessoa esperavam antes da conversa começar. É a categoria mais difícil de planejar, mas a mais valiosa quando acontece, porque não existia antes daquela interação específica.
Pra quem está começando, faz sentido focar em mover informação do oculto pro aberto: levar perguntas específicas, tipo qual stack estudar observando como profissionais resolvem problemas reais no dia a dia deles. Pra quem já tem experiência, o valor maior tende a estar em abrir espaço pro quadrante cego, aceitar feedback direto sobre uma abordagem que você defende há anos sem checar se ela ainda se sustenta.
Repertório de soluções: o argumento que não consegui provar com dado forte
Aqui preciso ser honesto sobre uma lacuna. A ideia de que “ver como outras pessoas resolvem os mesmos problemas amplia seu repertório” faz sentido lógico: quem só conhece um jeito de resolver algo tem um caminho só, quem viu várias abordagens tem mais opções pra escolher a mais adequada pra cada situação. Só que, procurando, não encontrei nenhum estudo quantitativo específico medindo esse efeito em eventos de tecnologia. O que existe são números de fontes de marketing de eventos, sem metodologia pública, então prefiro marcar isso como um argumento plausível baseado em lógica de exposição a diversidade, não como fato comprovado por pesquisa.
O mesmo vale pra ideia de que eventos de tecnologia “refletem o mercado” e ajudam a antecipar tendências de carreira. Não achei survey acadêmico sustentando isso de forma direta. É uma leitura razoável (a programação de um evento reflete, ao menos em parte, o que organizadores e patrocinadores acham relevante no momento), mas tem um viés embutido: curadoria e patrocínio não são uma amostra neutra do mercado inteiro.
O que os dados mostram sobre networking
Essa é a parte em que a pesquisa realmente me surpreendeu, porque o dado é bem mais forte do que eu esperava.
Em 1973, o sociólogo Mark Granovetter publicou um estudo hoje clássico, “The Strength of Weak Ties”, com mais de 65 mil citações acadêmicas. Ele entrevistou 282 trabalhadores em Boston e descobriu que 84% deles conseguiram o emprego atual através de laços fracos, ou seja, conhecidos casuais, não amigos próximos.
Achei que podia ser um dado datado, de outra economia, então fui atrás de algo mais recente. Em 2022, um estudo publicado na revista Science analisou mais de 20 milhões de usuários do LinkedIn ao longo de 5 anos e confirmou, de forma causal, que adicionar laços fracos aumenta tanto candidaturas quanto mudanças reais de emprego, mais do que adicionar laços fortes. O detalhe mais interessante: conexões com cerca de 10 amigos mútuos foram as mais eficazes, nem laços tão fracos a ponto de não terem sobreposição nenhuma, nem laços tão fortes a ponto de já serem redundantes. E esse efeito foi mais forte em indústrias digitais, categoria que inclui software, do que em indústrias analógicas.

Isso muda a forma como eu penso em “coletar contatos” num evento. Não é sobre volume. É sobre a força certa de conexão, nem muito próxima nem muito distante, e sobre criar espaço suficiente de quadrante aberto pra essa conexão existir de verdade.
Exemplo real: o que fazer quando você é introspectivo
Sou de Piracicaba, interior de São Paulo, e não costumo ir a meetups de meio de semana. Os eventos de tecnologia que frequento de verdade são no fim de semana: o DevPira Weekend, encontro da comunidade DevPira que acontece aos sábados, o DevPira Festival, evento anual da mesma comunidade, e os eventos dos GDGs de Americana e Campinas, cidades vizinhas, como o DevFest e o Google I/O Extended. Vou com uma frequência de mais ou menos uma vez por mês, às vezes a cada dois meses, nunca toda semana.
Sou introspectivo e sei que forçar conversa de corredor não é sustentável pra mim. O que funciona, e que a literatura sobre o tema também recomenda (mesmo sendo majoritariamente conteúdo de blog de carreira, não pesquisa controlada, então tratando com a devida reserva), é priorizar conexão um a um em vez de “sala cheia”, e mover parte do networking pra depois do evento: adicionar o palestrante no LinkedIn com uma mensagem específica sobre o que você achou relevante na fala dele, comentar publicamente sobre algo concreto que ele disse, ou mandar uma pergunta direta por mensagem em vez de tentar puxar papo ao vivo.
Isso não é uma alternativa inferior ao networking presencial. É outra forma de abrir o mesmo tipo de janela que o estudo do LinkedIn mostrou que funciona, só que assíncrona.
Quando eventos de tecnologia não valem a pena
Nem tudo é motivo pra ir. Algumas situações em que participar provavelmente não compensa:
Você vai sem nenhum “oculto” pra revelar, nem intenção real de abrir espaço pro seu próprio quadrante cego. Nesse caso é puro consumo passivo de conteúdo que você provavelmente encontraria depois em vídeo, com menos custo de tempo e dinheiro.
Você está tentando substituir formato presencial por virtual esperando o mesmo resultado. Ferramentas continuam sendo construídas pra tentar replicar “conversa de corredor” em formato online, o que sugere, mesmo sem dado definitivo sobre isso, que o formato virtual ainda não resolveu esse problema específico.
Você trata tudo que vê num evento como tendência de mercado confirmada, sem checar em outras fontes. Como mencionei antes, a curadoria do evento tem viés de patrocínio, não é amostra neutra.
Comparações: o que muda pra cada perfil
Iniciante e experiente tiram valor diferente do mesmo evento de tecnologia. O iniciante geralmente ganha mais movendo informação do quadrante oculto pro aberto, perguntas específicas sobre stack e prática real. O experiente costuma ganhar mais abrindo espaço pro quadrante cego, aceitando que uma abordagem defendida há anos pode ter um limite que só um olhar de fora enxerga.
Laço fraco e laço forte também não competem, eles servem pra coisas diferentes. Laço forte (amigo próximo, colega direto) você já tem o benefício capturado, a janela entre vocês já está bem aberta. É o laço fraco, aquela pessoa que você conheceu numa palestra e trocou duas mensagens depois, que o estudo do LinkedIn mostra que move a agulha em oportunidade de emprego.
E presencial versus virtual: virtual ganha em custo e alcance, presencial ainda parece vencer em revelar o quadrante desconhecido, justamente porque a serendipidade de corredor é difícil de replicar numa chamada de vídeo agendada.
Conclusão: então, vale a pena ir a eventos de tecnologia?
Voltando à pergunta que abriu esse texto: por que eu vou a eventos tech? A resposta que eu tenho agora é mais específica do que a que eu tinha antes. Não é “porque é bom pra carreira” de forma genérica. É porque, com um objetivo claro (um “oculto” específico que eu quero revelar, ou a intenção deliberada de abrir espaço pro meu próprio quadrante cego), o evento de tecnologia entrega algo que dificilmente eu replico sozinho na frente do computador.
O dado mais forte que encontrei não foi sobre palestras, foi sobre pessoas: laços fracos, do tipo que se formam justamente em eventos, têm relação comprovada com mobilidade de carreira. O resto (repertório de soluções, leitura de mercado) é argumento razoável, mas ainda sem o mesmo nível de evidência, e prefiro admitir isso a fingir que é fato assentado.
Da próxima vez que eu acordar num sábado de manhã pensando se vale a pena sair de casa pra um evento, a pergunta que vou fazer não é mais “vale a pena ir”. É “o que eu quero mover de quadrante lá, um oculto ou um cego”. E se a resposta for nenhum dos dois, tudo bem ficar em casa também. Pra mim, isso costuma significar ir a um evento por mês ou a cada dois meses, não mais que isso: frequência suficiente pra manter os laços fracos vivos sem virar obrigação de fim de semana.
Referências
Origem do modelo
- Luft, J.; Ingham, H. (1955). “The Johari window, a graphic model of interpersonal awareness”. Proceedings of the Western Training Laboratory in Group Development, UCLA. Citação consolidada em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Janela_de_Johari
- Silva, E. N.; Santos, A. N. (2022). “A Janela de Johari e o Desenvolvimento das Competências Socioemocionais: Algumas Notas Analíticas”. Revista Nova Paideia, 4(3). DOI: 10.36732/riep.vi.150
- Material de aplicação prática (Health Education England): https://www.hee.nhs.uk/sites/default/files/documents/Johari%20window.pdf
Estudos acadêmicos
- Kaufman, D. (2012). “A Força dos ‘Laços Fracos’ de Mark Granovetter no Ambiente do Ciberespaço”. GALÁxIA — Revista Interdisciplinar de Comunicação e Cultura, n. 23. Análise em português: https://revistas.pucsp.br/index.php/galaxia/article/view/5336
- Rajkumar, K.; Saint-Jacques, G.; Bojinov, I.; Brynjolfsson, E.; Aral, S. (2022). “A causal test of the strength of weak ties”. Science, 377(6612), 1304-1310. DOI oficial: https://www.science.org/doi/10.1126/science.abl4476
- Cobertura complementar (MIT Sloan): https://mitsloan.mit.edu/ideas-made-to-matter/study-weak-ties-make-a-difference-finding-a-job-online
- Cobertura complementar em português (Money Times): https://www.moneytimes.com.br/quem-deve-ajudar-mais-a-achar-um-emprego-este-estudo-de-harvard-responde/
Dados de comunidade
- Stack Overflow Developer Survey 2024, sobre hábitos de aprendizado e comunidade. https://survey.stackoverflow.co/2024/community